segunda-feira, 20 de abril de 2020

Regência dos verbos namorar, atender, preferir e visar

Namorar é um verbo transitivo direto, portanto seu complemento é um objeto direto. Esse tipo de complemento não é regido por preposição. Isso quer dizer que é inadequado o uso da preposição COM, a não ser em comédias.

O que é adequado:
Quem Paulo namora? Paulo namora Ana.

O que é inadequado:
Com quem Paulo namora? Paulo namora com Ana.

Importante: o dicionário Houaiss já registra como correto o uso da preposição com, por influência dos verbos casar e noivar.
Regência do verbo atender, segundo Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal:

1- Quando o complemento do verbo é PESSOA, não usamos preposição.

Ex.: O professor atendeu o pai do aluno.

2- Quando o complemento do verbo é COISA, usamos preposição a.

Ex.: Atender ao portão, ao telefone, à porta, à campainha.

Sendo assim, uma mãe atende ao telefone para atender o filho.

ATENÇÃO:

Alguns gramáticos consideram facultativo o uso da preposição a. No entanto, a preferência é para a regência determinada por Luft, pois é a que corresponde à norma culta da língua e a exigida nos concursos, vestibulares e Enem, e nos textos argumentativos e explicativos. Vale ressaltar que a visão do professor Luiz Antonio Sacconi sobre a regência do verbo atender é a mesma de Celso Pedro Luft.

A regência do verbo preferir é preferir uma coisa a outra. Preferir uma coisa do que outra se justifica por associação com o verbo gostar e preferir mais é pleonasmo vicioso.

Exemplo:

Quando chove, prefiro ler um bom livro a ir ao shopping.

Assim, devemos dizer:

Prefiro ficar em casa a ir ao shopping.

E não devemos dizer:

Prefiro ficar em casa do que ir ao shopping.

Não se deve usar a locução conjuntiva do que nem advérbios ou locuções adverbiais de intensidade como mais, antes, mil vezes, muito mais, um milhão de vezes.

1- O verbo visar, no sentido de almejar, aspirar, desejar, querer conseguir é transitivo indireto, portanto, pede uma preposição.

Exemplo:

A moça visa a um bom emprego.

2- O verbo visar, no sentido de dar um visto, mirar é transitivo direto.

Exemplos:

A funcionária visou o cheque.

O soldado visou o alvo.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Contra – Com hífen ou sem?

1) Pelas regras do Acordo Ortográfico de 2008, como normalmente ocorre com os prefixos terminados por vogal, apenas se emprega o hífen com o prefixo contra em dois casos: a) quando o segundo elemento começa por h (contra-habitual, contra-harmônico, contra-haste, contra-homônimo); b) quando o elemento seguinte se inicia com a mesma letra que termina o prefixo (contra-acusação, contra-almirante, contra-apelação, contra-arrestar, contra-ataque, contra-argumento).

2) Antes de outra consoante, que não seja h, acopla-se diretamente à palavra seguinte, sem hífen: contrabalançar, contracapa, contracheque, contragolpe, contradança, contrafilé, contramão, contratempo, contramandado, contrapartida, contraponto, contraveneno, contraproposta.

Contradança - elemento se originou de country, que significa região em inglês, significa dança regional
Contraceptivo - anglicismo, transposição de contraceptive, prefira-se anticoncepcional

3) De igual modo, junta-se sem hífen, quando o elemento seguinte se inicia por outra vogal, que não a mesma que finaliza o prefixo: contraescritura, contrainterpelar, contraoferta, contraindicação, contraofensiva, contraordem, contraespião.

4) Ressalva-se que, se a palavra seguinte se inicia por r ou s, tais consoantes são duplicadas pela necessidade de manutenção do som, mas não se usa o hífen: contrarrazões, contrarrecibo, contrarreforma, contrarregra, contrarréplica, contrasseguro, contrassenso, contrassistema, contrassenha, contrarrazão, contrarrelógio, contrarrevolução.

5) Adiciona-se ponderação importante: o ato de argumentar e escrever as razões de determinados recursos tanto pode ser razoar como arrazoar. Desse modo, oferecer a respectiva resposta a um recurso tanto pode ser contrarrazoar (resultado de contra + razoar) como contra-arrazoar (resultado de contra + arrazoar).

É proibido – Como concordar?

1) Uma leitora encontrou em um livro a seguinte frase: "Foram precisos vários minutos para remover a neve que bloqueava a porta". A expressão foram precisos lhe soou estranha e inadequada. Por isso indaga se ela está certa.

2) Em realidade, expressões como é bom, é necessário, é preciso, é permitido e é proibido apresentam problemas quanto às concordâncias nominal e verbal.

3) Se o sujeito é genérico (não vem precedido de artigo, pronome, numeral ou adjetivo), a expressão fica invariável, no masculino singular: "É proibido entrada".

4) Se o sujeito é específico (tem antes de si algum termo que o determina), a expressão concorda com o nome a que se refere: "É proibida a / minha / sua / nossa / essa / aquela entrada; São precisos os / estes / três / quatro / cinco / seis conferencistas".

5) Se ocorre elipse do verbo ser, continuam valendo as recomendações feitas. Exs.: a) "Proibido entrada"; b) "Proibida a entrada"; c) "Proibido armas a tiracolo"; d) "Expressamente proibido animais na praia".

6) A respeito da concordância observada, Aires da Mata Machado Filho refere lição de Said Ali, o qual – na tentativa de explicação da invariabilidade do adjetivo em tais casos – recorre à elipse de um verbo, cujo objeto direto seria o substantivo subsequente às locuções em apreço.

7) Assim, "é preciso paciência" valeria o mesmo que "é preciso ter paciência".

8) Após noticiar a referida doutrina, porém, tal autor (MACHADO FILHO, 1969a, p. 573-6) – no que é seguido por Antenor Nascentes, em posição que parece mais acertada – dá preferência à lição de Mário Barreto: "Não se diga que a língua portuguesa não tem gênero neutro; diga-se antes que nela há o neutro, mas que a sua forma se confundiu com a do masculino. Em português, como em toda língua, o neutro distingue-se, no pensamento, do masculino, posto que já não se distingue um do outro exteriormente, por formas gramaticais particulares ao masculino e ao neutro, formas que se tornaram idênticas pela obliteração das antigas terminações que os diferençavam".

9) E Eduardo Carlos Pereira (1924, p. 229), lembrando que tal sintaxe é "um dos vestígios interessantes do gênero neutro em português", justifica que, em expressões desse jaez, "bom, necessário, proibido assumem a forma aparentemente masculina, porém realmente neutra, visto que os substantivos a que se referem, tomados em sua generalidade abstrata, assumem o sentido vago, no qual como que se oblitera o conceito genérico".

10) Carlos Góis (1943, p. 94), por seu lado, vê em construções dessa natureza a "elipse de termos de uma segunda oração do período, da qual o único elemento sobrevivente é o tal nome no plural", acrescentando que a concordância expressa é a mais usual entre os autores, exemplificando com o Padre Vieira: "Para esta visão são necessários olhos".

11) Em termos práticos, tomando por referência a frase "é proibido entrada", significativa é a síntese que Silveira Bueno fazia a um de seus consulentes: "Quando o substantivo (entrada) é tomado em toda a sua generalidade, sem determinação alguma, assume a forma neutra o adjetivo, permanecendo invariável. Mas se o snr. colocar o artigo antes de entrada, então deverá fazer a concordância" (1938, p. 222-3).

12) Cândido de Oliveira (s/d, p. 69) sintetiza a questão em duas regras para tais expressões: a) os adjetivos "ficam invariáveis quando não há artigo a"; b) contudo, "se houver artigo [e, obviamente, for ele feminino], vem a forma feminina".

13) Em outra obra, assim explana Silveira Bueno, em mesmo sentido: "Quando determinada palavra é tomada em toda a significação, sem a menor restrição ou determinação, pode o adjetivo permanecer no masculino sem concordar com o termo a que se refere. Assim se diz: é proibido entrada, é necessário gramática, cerveja é bom para engordar. Basta que se ponha o artigo para que a concordância passe a ser obrigatória: é proibida a entrada..., é necessária a gramática, a cerveja é boa para engordar" (1957, p. 375).

14) Por sua vez, ensina Vitório Bergo (1944, p. 106) ser concordância regular e permitida "Eram precisas despesas"; observa, todavia, não ser "condenável a concordância ´Era preciso despesas´, notadamente com o substantivo não definido".

15) Mesmo em casos de ocorrente determinação, observa Artur de Almeida Torres que, "às vezes, porém, ou porque haja elipse de um infinitivo, ou porque perdure o sentido de neutralidade, o predicativo não concorda com o sujeito determinado". Exs.: a) "Não era preciso esta minuciosa genealogia" (Machado de Assis); b) "É necessário uma derradeira prova de esforço" (Alexandre Herculano); c) "Era preciso muita cautela" (Camilo Castelo Branco).

16) E justifica tal gramático: "Pode-se subentender, em tais casos, os verbos ter ou possuir: É necessário (ter ou possuir) muita cautela" (TORRES, 1966, p. 164).

17) É interessante registrar que à possibilidade de permanência do verbo no singular, mesmo "figurando na frase um nome no plural posposto com a ´aparência de sujeito´", Carlos Góis (1943, p. 123) dá o nome de discordância verbal.

18) Com essas observações, assim se conclui em resposta direta à leitora: a) no caso do exemplo por ela trazido, o circunlóquio a ser considerado é "foram precisos vários minutos"; b) nesse torneio, é preciso atentar à expressão vários minutos; c) ora, vários é o modificador suficiente para fazer variar a concordância da expressão é preciso; d) está, portanto, plenamente correta a concordância do exemplo por ela trazido, a saber "foram precisos vários minutos"; e) quanto a outras possibilidades de concordância, vale a pena ler as observações e o ensino dos gramáticos, tais como acima referidos.

Análise legal-institucional – Qual o plural?

1) Quando se pergunta qual o plural de uma expressão como essa, a dúvida não está no substantivo análise, cujo plural é de fácil obtenção, mas no circunlóquio legal-institucional, uma expressão que vale por adjetivo (a qualificar análise), composta por dois elementos unidos por hífen, o que, então, significa um adjetivo composto.

2) Ora, num adjetivo composto, duas regras gerais são de grande importância para fazer o plural ou o feminino: a) o primeiro elemento é sempre invariável; b) o segundo elemento só varia se ele próprio é um adjetivo.

3) Assim, vejam-se alguns casos em que o segundo elemento é um adjetivo, com suas variações: tratado luso-brasileiro, tratados luso-brasileiros, convenção luso-brasileira, convenções luso-brasileiras.

4) E também se confiram casos em que o segundo elemento não é um adjetivo, mas um substantivo: uniforme verde-mar, uniformes verde-mar, farda verde-mar, fardas verde-mar. Apenas o substantivo de fato vai para o plural.

5) No caso específico da dúvida trazida pelo leitor, o último elemento (institucional) é adjetivo, e, assim, o plural se forma do seguinte modo: aspecto legal-institucional, aspectos legal-institucionais, análise legal-institucional, análises legal-institucionais.

Locução verbal – Como flexionar?

Um leitor que se identifica apenas como Antônio envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"'São possibilidades, mas que terão desde já de serem administradas pela Fazenda e pelo BC'. Meus prezados: '...terão desde já de serem...', ou '...terão desde já de ser'. Obrigado."

Envie sua dúvida

1) Um leitor indaga qual a forma correta de flexão dos verbos nas seguintes expressões: a) "As possibilidades terão desde já de ser administradas..."; b) "As possibilidades terão desde já de serem administradas..."

2) Façam-se, de início, as seguintes ponderações: a) a expressão terão de ser equivale aproximadamente à forma verbal serão; b) quando uma expressão assim vale por um verbo, diz-se que se está diante de uma locução verbal; c) em uma locução, um dos verbos dá o sentido (no caso, ser), enquanto o outro ajuda na conjugação (no caso, ter); d) o verbo no infinitivo, que dá o sentido à locução, é o principal, e o que ajuda na flexão é o auxiliar; e) o verbo auxiliar, exatamente por sua função de ajudar na conjugação, é aquele que se flexiona; f) já o principal não varia, a não ser em comédias.

3) Confirme-se lição corrente entre os gramáticos segundo a qual, nas locuções verbais, "não é lícito flexionar o infinitivo". Exs.: a) "Os magistrados não podem fazer sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (correto); b) "Os magistrados não podem fazerem sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (errado, correto só para o zé-povinho).

4) Apesar desse firme e remansoso ensino, é erro muito comum a utilização do infinitivo flexionado nesses casos, sobretudo quando, entre o verbo auxiliar e o verbo principal, se interpõem outras palavras. Exs.: a) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazerem o trabalho de administrar a justiça" (errado, só para o homem do povo é correto); b) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazer o trabalho de administrar a justiça" (correto).

5) Cândido de Figueiredo, exatamente a esse respeito, lembra o seguinte exemplo encontrado "num livro moderno, premiado oficialmente": "Podem, entretanto, esses serviços serem estabelecidos...". E complementa: "Podem serem ... não é linguagem de cá". Nem de cá, nem de lá, nem de lugar nenhum. Corrija-se: "Podem, entretanto, esses serviços ser estabelecidos..."

6) Tendo essas explicações como premissas, retomem-se os exemplos da consulta, com a indicação de sua correção ou erronia entre parênteses: a) "As possibilidades terão desde já de ser administradas..." (correto); b) "As possibilidades terão desde já de serem administradas..." (errado).

Redação jurídica – Pode ser em primeira pessoa?

1) Uma leitora, não conseguindo encontrar resposta adequada, indaga se pode escrever um parecer jurídico em primeira pessoa.

2) Ora, em suas diversas modalidades (petições, pareceres, arrazoados ou trabalhos acadêmicos), a redação jurídica deve obedecer a determinados critérios, que é oportuno observar.

3) Num primeiro aspecto, lembra-se que o Direito é uma ciência, de modo que o profissional da área produz textos científicos, cuja linguagem deve ser técnica e precisa.

4) Por isso, já em resposta direta à indagação da leitora, anota-se que a linguagem do Direito, exatamente por ser científica, deve ser precisa, objetiva e impessoal, e não pessoal nem subjetiva, como na literatura.

5) Isso quer significar que, com a exceção representada pela expressão final de um parecer ("É o que me parece, salvo melhor juízo [ou, de modo abreviado, s. m. j.]" – o que também pode ser dito de outra forma objetiva e impessoal ["É o que parece, salvo melhor juízo])", um parecerista, assim como todo e qualquer autor de petição, arrazoado ou trabalho acadêmico, deve empregar, na redação que produz, a terceira pessoa (e não a primeira, quer do singular, quer do plural).

6) Fica, assim, muito mais adequado dizer, em uma fundamentação, "Quando se busca uma interpretação convincente..." do que "Quando eu busco (ou buscamos) uma interpretação convincente...". Deve-se proceder de modo idêntico nas conclusões: "Conclui-se que..." fica muito melhor do que "Concluo que..." ou mesmo "Concluímos que...", ainda que essa última expressão tenha por pretexto um plural de modéstia.

7) Aproveitando a oportunidade, outras observações podem ser acrescidas para o aperfeiçoamento da redação jurídica: a) é inconveniente, de um modo geral, substituir termos técnicos e locuções por sinônimos, a pretexto de evitar repetições e de buscar uma pretensa linguagem literária (assim, não se deve substituir, ao longo de um texto, por exemplo, petição inicial por peça inaugural, petição de introito, preambular ou vestibular); b) em nome da sobriedade e da objetividade próprias da linguagem científica, deve-se evitar o excesso de adjetivos, advérbios, superlativos, pronomes, conjunções, aumentativos e diminutivos, preferindo-se verbos e substantivos (como clara e indefectível Justiça, digna Autoridade Policial, douta Procuradoria de Justiça ou ilustrado Órgão do Ministério Público, bastando dizer Justiça, Autoridade Policial, Procuradoria de Justiça ou Órgão do Ministério Público); c) devendo a linguagem jurídica ser sóbria e parcimoniosa, clara, correta e persuasiva, são perfeitamente dispensáveis pedidos de licença para alguma afirmação mais contundente ou divergente (como, por exemplo, data venia, ou venia concessa, ou similares).

Voz passiva sintética – Como reconhecer e diferenciar?

O leitor Angelo Castro envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Prezado Professor. Primeiramente, venho dizer que estou sempre atento a suas dicas. Acho excelente a sua didática. Por isso, requisito seu auxílio para a seguinte dúvida, que diz respeito às vozes verbais. Normalmente é fácil diferenciar a voz passiva sintética da voz passiva analítica, principalmente devido à presença da partícula apassivadora (SE) na forma da passiva sintética. Contudo, na forma abaixo, essa não era a melhor forma para identificar qual a voz verbal de cada frase. (a) 'Quando os portugueses descobriram as terras que vieram a se chamar Brasil, encontraram povos...'; (b) 'Quando os portugueses descobriram as terras A QUE VEIO a se chamar Brasil, encontraram povos...' Tendo em vista as duas frases acima, o senhor poderia me ajudar a identificar qual delas é a passiva sintética, analítica e o porquê? Muito obrigado."

Envie sua dúvida

1) Um leitor diz ter dificuldade em reconhecer, em determinados casos, a voz passiva sintética e, em outros casos, em diferenciá-la da voz passiva analítica. E pede auxílio para proceder a tal identificação nos seguintes exemplos: (i) "Quando os portugueses descobriram as terras que vieram a se chamar Brasil, encontraram povos..."; (b) "Quando os portugueses descobriram as terras a que veio a se chamar Brasil, encontraram povos..."

2) No plano dos conceitos, é importante observar que voz ativa e voz passiva são duas maneiras sintaticamente diversas de dizer a mesma realidade de fato, conforme o sujeito pratique ou receba a ação indicada pelo verbo. Exs.: (i) "O magistrado proferiu a sentença" (voz ativa, porque o sujeito magistrado pratica a ação indicada pelo verbo proferir); (ii) "A sentença foi proferida pelo magistrado" (voz passiva, porque o sujeito sentença recebe a ação indicada pelo verbo proferir).

3) Seguindo um pouco mais à frente, têm-se os seguintes exemplos, os quais, em comum, têm um se acoplado ao verbo e apresentam problemas quanto à questão das vozes verbais: (i) "Aluga-se uma casa"; (ii) "Gosta-se de um bom vinho".

4) Quanto ao primeiro exemplo – "Aluga-se uma casa" – , trata-se de uma frase reversível, pois pode ser dita de outro modo (Uma casa é alugada), e a seu respeito podem-se extrair as seguintes ilações: (i) um exemplo reversível assim está na voz passiva sintética; (ii) nele, o se é uma partícula apassivadora; (iii) o sujeito é uma casa (sujeito, e não objeto direto); (iv) porque o sujeito é uma casa, se este vai para o plural, o verbo também vai, em razão da mais básica regra de concordância, segundo a qual o verbo concorda com o seu sujeito (Alugam-se casas); (v) apenas para completar os conceitos, tendo em vista os fins da indagação do leitor, o exemplo "Casas são alugadas" está na voz passiva analítica, que é assim chamada por ser mais extensa que a voz passiva sintética.

5) Já quanto ao segundo exemplo – "Gosta-se de um bom vinho" – trata-se de uma frase não reversível, pois não pode ser dita de outro modo (ninguém pensaria em dizer "De um bom vinho é gostado"), e a seu respeito podem-se tirar as seguintes conclusões: (i) um exemplo não reversível assim não pode estar na voz passiva sintética, mas sim na voz ativa; (ii) nele, o se não é partícula apassivadora, e sim um índice de indeterminação do sujeito; (iii) o sujeito dessa oração é indeterminado; (iv) porque o sujeito é indeterminado, se o termo um bom vinho vai para o plural, não é o sujeito que se modifica (esse termo, aliás, é o objeto indireto); (v) se, ao passar um bom vinho para o plural, não se toca no sujeito, o verbo não se modifica; (vi) seu plural, por conseguinte, há de ser "Gosta-se de bons vinhos".

6) Com essas ponderações, volta-se à primeira frase trazida pelo leitor: (i) a frase é "Quando os portugueses descobriram as terras que vieram a se chamar Brasil..."; (ii) por facilidade – e sem alterar a estrutura analisada quanto a seu mérito – reduz-se a frase para "... as terras ... vieram a se chamar Brasil..."; (iii) trata-se de uma frase reversível (pois pode ser dita de outro modo, a saber, "as terras ... vieram a ser chamadas Brasil..."; (iv) se a frase é reversível, o exemplo está na voz passiva sintética; (v) o se é partícula apassivadora; (vi) o sujeito é as terras, razão pela qual o verbo está no plural; (vii) se o sujeito fosse a terra, então a frase seria "... a terra ... veio a se chamar Brasil..."; (viii) na voz passiva analítica, as frases são "a terra ... veio a ser chamada Brasil..." e "as terras ... vieram a ser chamadas Brasil..."

7) Altera-se ligeiramente a frase, omitindo-se o se, e se extraem outras conclusões: (i) a frase passa a ser "Quando os portugueses descobriram as terras que vieram a chamar Brasil..."; (ii) quando se pergunta pelo sujeito de vieram nessa nova frase, a resposta é portugueses, e não terras; (iii) por facilidade de análise – e também sem alterar a estrutura analisada quanto a seu mérito – reduz-se a frase para "... as terras que (eles – os portugueses) vieram a chamar Brasil..."; (iv) não se há de pensar em reversibilidade da frase, até porque não há um se; (v) como o sujeito (eles ou os portugueses) pratica a ação de chamar, o exemplo está na voz ativa; (vi) se terras for para o singular, o sujeito não será modificado, de modo que não haverá alteração alguma quanto à concordância ("... a terra que (eles – os portugueses) vieram a chamar Brasil...".

8) Por fim, importa observar que a última frase trazida pelo leitor ("Quando os portugueses descobriram as terras A QUE VEIO a se chamar Brasil, encontraram povos..."), o certo é que ela apresenta erro de sintaxe exatamente no trecho trazido em destaque por ele próprio, de modo que não admite análise nem considerações outras, além das que foram feitas nos itens acima.